sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

                             POR AMOR A BENZAITEN

 

“Não siga o caminho dos antigos;

Busque o que eles buscaram”.

BASHÔ


“Nunca te orgulhes de haver vencido a um adversário, ao que venceste hoje poderá derrotar-te amanhã. A única vitória que perdura é a que se conquista sobre a própria ignorância”.

JIGORO KANO, criador do judô

 

“O verdadeiro Budô (caminho do guerreiro) é feito em prol da construção da paz. Treina todos os dias, a fim de fazer paz entre este espírito e todas as coisas que se manifestam sobre a face da Terra”.

MORIHEI UESHIBA, criador do aikidô

 

“Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

CAETANO VELOSO – ‘Dom de Iludir’

 

“Fonte de mel

Nos olhos de gueixa

Kabuki, máscara

Choque entre o azul

E o cacho de acácias

Luz das acácias

Você é mãe do sol (...)”.

CAETANO VELOSO – ‘Você é Linda’

 

 

Resignou-se, como fora treinado a fazer.

“Honra! Honra, desgraçado!” – dizia a si mesmo enquanto o irmão levava a mulher que queria, a mulher era do irmão, ainda que a contragosto seu e dela.

Arrastada pelos cabelos. O coque desmanchado escorria, devassado, sobre as espáduas nuas. A seda bordada de flores de cerejeira atravessava seus olhos como um rio caudaloso de sangue. Os gritos lhe lancetavam a alma.

“Prefiro fazê-la prostituta do que vê-la na cama de um poeta!” – dissera o irmão na noite anterior. E jogando-a na esteira ao fundo do templo, atrás do biombo, a possuía à força, sem respeito aos ancestrais, sem respeito aos seres iluminados, sem respeito a nada!

Segurou o cabo da adaga por minutos que não se acabavam, enquanto pensava se tosquiava a cabeleira do irmão e lhe vazava os olhos, ou se varava o próprio ventre, hirto e calado como o cedro, plácido e magnânimo como o único ser digno da família.


*                                        *                                                     *

Hiroshi ficou perturbado com os absurdos que o irmão perpetrara na noite anterior. Não havia mais possibilidade de continuar ali. Era hora de fazer a viagem que por tanto tempo maquinara, mas isto significava também a hora da despedida, a hora que doeria como arrancar um membro de seu próprio corpo.

Penetrou levemente o quarto de Saori, na manhã em que o meio-irmão Yataro tentava negociar os cavalos. O cômodo estava vazio e entrecortado por fachos de luz que se espraiavam a partir das altas janelas. Evitou pisar nas esteiras que os dois usavam para dormir, lhe causavam repulsa, e abriu o armário com redobrado cuidado, para que seu ranger de muitos tsurus[1] não acordasse as criadas negligentes.

Segurou com ternura a caixinha de madrepérola, tocou com as pontas dos dedos as flores secas de sakura[2], os pingentes de jade, levou às narinas a faixa de seda embebida em perfume e depois ali depositou seus nove haikais, pintados cuidadosamente no papel enrolado – perceberia ela as lágrimas que nele caíram e secaram?

Então recompôs os pertences em seu devido lugar, virou-se, deparou com a estátua de Jizo Bosatsu[3], fez-lhe uma reverência, murmurou uma reza em que pedia para que Saori jamais concebesse de seu irmão, e que também lhe abençoasse a jornada de crescimento na arte da iluminação – ou seria fuga?

Aproximou-se da porta, correu-a sobre os trilhos e então parou abruptamente.

Da varanda lhe fitava o irmão, os olhos injetados de sangue, o sorriso sarcástico de um oni[4] em tocaia. Decidiu sair de vez do quarto e empurrou Yataro com violência. Ele caiu e já se preparava para desembainhar a kataná[5], quando pareceu hesitar – um último resquício de laços de sangue lhe continha – e gritou com todo o ar que lhe arfava dos pulmões: “Fora daqui! Ao inferno, desgraçado! Que vá vagabundear como Bashô e os outros malditos poetas que te entorpeceram! Homem fraco, sonhador, derrotado! Que o Buda Amida[6] possa te ensinar a não desejar o que é dos outros! Se não te comove a memória de nossos pais, que se perca a tua memória pelos caminhos! Não me permita mais olhar pra tua cara de defunto!

Hiroshi cingiu os lombos com força, pôs a trouxa aos ombros, olhou para o irmão – desta vez com pena, um pouco ainda misturada ao ódio antigo – e foi batendo os pés, espalhando os crisântemos do jardim, disposto a nunca mais olhar para trás.                                                                                  

 

*                                        *                                                     *

 

Seu amado poeta Bashô empreendera sua viagem pelo norte da ilha de Honshu. Todavia, se ele mesmo dizia que não devemos seguir os antigos, mas buscar o que eles buscaram, decidiu que a sua própria viagem se daria ao contrário, pelo sul.

O Mestre evitara o sul até para moradia, pois a concorrência seria maior. Não havia tantos haijins[7] em qualquer outra parte do Japão.

Pouco importava agora. O que preocupava não era a competição pela fama. O que importava era a busca pelo satori[8]. E a libertação daquela obsessão.

Assim partiu de Wakayama, na Península de Kii, carregando consigo apenas duas mudas de roupa, um par de sandálias de reserva, um cantil, uma tigela, uma cópia do Sutra do Coração[9], e um maço de tanzaku[10].

Depois de seguir por mais de 78 quilômetros, fazendo pouso em estalagens e casas de camponeses, templos e às vezes estábulos, sob a chuva ou sob a lua, afinal estava em Osaka.

Neste trajeto mais sofrido do que esperava, observou atento aos pinheiros, aos montes, à coruja, ao rouxinol, olhou de cima os rochedos que desciam inclinados à costa e percebeu a sensação de estabilidade que os antigos encontraram quando buscaram tais paisagens. Em contraste com sua tempestade interna, Hiroshi compôs dois haikais, assim:

 

Olhos sob a noite

Muito dentro cego/surdo

Fora outono canta.

 

Barqueiros ao mar

Remos cortam fios de lua

Me corta é pensar.

 

Osaka fervilhava em seu porto com comerciantes de algumas partes do Oriente, principalmente do Império do Grande Qing e dos Reinos de Joseon e Champa[11]. Embora o xogum[12] visse os ocidentais com muito maus olhos, era possível encontrar alguns deles comerciando, tentando arrogantemente impor seus poetas, suas novelas, suas roupas, seu Deus cristão. Proferiam bravatas nos yukakus e karyukais[13], até que o daimiô[14] mandava acabar com a farra, se preciso mandando castrar a faca os mais petulantes.

Um negociante local pareceu demonstrar curiosidade sobre sua história, embora sua vulgaridade não demonstrasse nenhuma sensibilidade verdadeira para tal.

Sendo um senhor abastado, de nome Kichiro, resolveu hospedá-lo em sua casa. Serviu-lhe um bom saquê e atum, carapau e baiacu, acompanhados de rabanetes e sopa de missô.

Quis ouvir mais de sua jornada, não compreendeu o porquê de se submeter a isto, “por que não parava, alugava uma casa e fazia algo de útil na vida?”, e foi dormir.

A esposa ainda olhou para trás antes de se recolher, diversas vezes, e sorriu mais do que a compostura permite. Hiroshi entendeu o que ela queria, mas não lhe deu o que ela queria. Invés disso, compôs uns versos que logo escondeu em segredo:

 

Muitos chifres rondam

A cabeça que vai longe:

Maridos omissos.

 

Ao poeta não agradou esta inquietação citadina, já que buscava a paz. Embora tenha desfrutado de uma boa cama e de uma boa mesa, decidiu não se demorar ali. Tanta insensatez e baixaria não poderia deixar de lhe recordar do irmão.

Yataro, sempre o mais dado às artes da guerra, era o perfeito representante de sua classe. Era o que de fato se esperava de um samurai. Lacônico, seco, brutal quando necessário (e quando desnecessário também), patriota, cheio de senso de honra (o que ele achava que era honra, e quando lhe convinha). O favorito do pai, o receio da mãe.

Debaixo das asas da mãe cresceu Hiroshi. Ouvia-lhe declamando a poesia chinesa de Li Po e Tu Fu, preparando os bolinhos de arroz e cantando as canções do Teatro Nô. Era a este mundo que pertencia, não ao do seu pai e do seu irmão.

Por isso se calava, calou-se até quando os viu negociando o dote da menina, a menina tão delicada, como poderia casar-se com Yataro?

Saori não fora feita para Yataro, fora feita para si. Hiroshi sempre soube. Quando ela veio morar em casa e ouviu as reuniões de renga[15], ela também o soube. Uma princesa poetisa habitava lá dentro. E ela já era sua, em espírito, ainda que servisse de estrado ao irmão.

Voltando a si, meneando a cabeça em sinal de desaprovação, deixou a cidade. Afixou no muro da divisa mais este poema:

 

Os tolos que correm

Formigas incautas

No fim da vida, baratas.

 

Caminhando aos poucos, pousou em Yao. Em direção a Kobe, parou diante da cachoeira de Nunobiki e refletiu sobre a transitoriedade da vida. Quantas águas já correram aqui, quantos homens viveram e morreram enquanto o rio ainda vive. Quantos peixes nadaram e foram fisgados, quantos viraram alimento e quantos apodreceram no mercado, quantas ideias fluíram como essas águas enquanto alguém olhava essa queda d´água, como ele mesmo olhava agora! Que eram suas dores diante de tanta grandeza?

Em Kobe pediu abrigo no magnífico Templo Ikuta, dedicado a Wakahirume, deusa da juventude e da aurora. Quando se observa o sol nascente daquele ponto de vista, dá para compreender perfeitamente porque foi o local escolhido.

Acordou bem cedo no dia seguinte ao da sua chegada, ouvindo os mantras dos rituais. Lavou-se e vestiu-se rapidamente para participar dos ritos de purificação. Trazia poeira no corpo e na alma, precisava daqueles ares.

Essa rotina foi repetida por vários dias, até que resolveu partir no dia do festival da colheita de arroz. Entre as carroças e dançarinos que carregavam as relíquias dos deuses, confundiu-se na multidão e se esvaiu como fumaça. Sentiu-se culpado por sequer ter se despedido pessoalmente, mas deixara uma carta. Seu espírito se perturbara por algum motivo, talvez algum demônio lhe atacasse por ali.

 

*                                        *                                                     *


Agora tomava mais uma estrada muito longa, e o destino era Nara. A estupenda cidade, que fora capital do país por um breve período no século VIII, construída nos moldes de Xi’an, a capital chinesa à época, com projetos arquitetônicos dos imigrantes de Baekje[16], era toda imponência do início ao fim. Dos portões de Rashomon ao sul, a grande avenida Suzaku, com 70 metros de largura, ladeada de salgueiros, cortava toda a cidade até os palácios imperiais.

Os parques da cidade estavam repletos dos cervos sagrados que pastavam livremente, e que se inclinavam às mãos dos transeuntes para receber algum bocado de bolachas sembei ou um naco de pão de melão.

Ao lado dos palácios, o grande Templo Todai-ji, governado pela escola budista Shingon, abrigava a maior estátua de bronze conhecida do Buda Vairocana, ou Daimishi, o que é considerado o primeiro e a essência de todos os Budas que depois encarnaram neste mundo.

Esse Buda estava ainda além do Sakyamuni[17], embora este tenha sido uma de suas formas, a mais propícia a ensinar as criaturas a se libertar das amarras do sofrimento.

Os mestres desta corrente se concentram nos mudras – os gestos sagrados, nos mantras – as palavras sagradas, e nas mandalas – as figuras circulares sagradas, para atingir a iluminação. Através de tais práticas esotéricas, muito similares a algumas do Tibet, creem que podem atingir a Luz ainda nesta vida, sem necessitar de várias encarnações para tanto.

Mas não se engane esperando rapidez mesmo assim. Sua meditação é rigorosa e as práticas não podem ser aprendidas em textos, mas apenas com um mestre rigorosamente treinado por muitos e muitos anos.

Talvez fosse a importância dada à beleza e à arte que esses monges demonstram que tenha atraído o poeta para este lugar. Ali lhe entenderiam, por certo.

E assim foi.

Hiroshi chegou para aclarar seu espírito por algumas semanas, no máximo por um mês, mas ficou por sete anos.

Só o primeiro ano foi todo gasto para discutir com seu mestre Kobo o significado do Sutra do Coração que carregara em sua mochila. Nunca ouvira aquele modo de interpretação, nem supunha que fosse possível extrair tantas camadas de significados em um texto que preenchia apenas uma folha.

No segundo ano se dedicou a aprender os mantras dos Treze Budas; no terceiro, a adentrar os três mistérios do corpo, da fala e da mente; no quarto, buscou a neutralidade do desejo e do apego e demorou mais três anos para começar a entender a última verdade, o segredo de sua própria experiência espiritual, sem depender de ninguém.

Sentiu-se então estranhamente conectado ao jardim de pedra, ao lago das carpas e das tartarugas, à ponte escarlate, às lanternas bruxuleantes, à noite escura, ao orvalho das plantas, a todos os seus irmãos de monastério, e sentiu compaixão por um mundo que cresce em dores, como a semente que precisa morrer para germinar o carvalho, a mulher que precisa suportar as dores do parto ou o homem que precisa amadurecer para superar uma morte.

Sentiu que não havia mais o que aprender, ao menos ali, discípulos somos todos eternamente, é claro, mas deveria se desprender de tudo, inclusive seu novo tão querido pai, o venerável Kobo.

Prostrou-se diante dele, saudou com sua divindade interna a divindade dele e olhou nos seus olhos pela última vez. Chorar não seria uma boa demonstração de desapego budista. E se foi.

 

*                                        *                                                     *


Celebrava-se o Hinamatsuri[18] quando chegou a Otsu. A visão do Lago Biwa[19] lhe renovou os propósitos e os talentos.

Por horas contemplou suas águas calmas, e das fontes da alma lhe brotaram diversos haikais. O que mais gostou foi este:

 

Um lago é música

Represa em si o poeta

É o corpo da deusa.

 

Como o clima era frio, não poderia dormir apenas sob as estrelas, a estas margens, como planejara.

Buscou uma estalagem com aquecimento interno, onde ouviu no quarto ao lado um pescador que chorava. Foi até ele e pediu para conversar. O homem era atormentado por ter assassinado seu sócio a alguns anos e lhe implorou para ensinar-lhe o caminho do Dharma, o caminho do Buda.

Hiroshi lhe explicou que para ele só havia dois caminhos possíveis: ou a renúncia a todas as coisas e o ingresso na Sangha, a comunidade dos monges, ou então entregar-se às autoridades, aceitando seu destino, fosse a decapitação ou a prisão. Preso, poderia ser verdadeiramente livre; morto, poderia nascer de novo. O pescador não gostou de nenhuma das duas ideias, e saiu resmungando.

Naquela noite dormiu perturbado, houve um hiato em sua paz. Teve um pesadelo onde caminhava em escuridão completa. Ouviu o grunhir de um porco, o rastejar de uma cobra sobre as folhas, o canto estridente e dolorido de uma ave. Percebeu-se montando um cavalo, que galopava sem rumo, sabia que despencaria de grandes alturas, mas uma donzela se colocou à sua frente, segurou suas rédeas, e estancou o animal. Tocou-lhe o peito e os lábios e disse: Cantai!

 

*                                        *                                                     *

 

Hiroshi entendeu de alguma forma o recado. Identificou a donzela com Benzaiten[20] e se surpreendeu de como nunca percebera que ela deveria ser o kami de sua devoção, o que buscara por toda a vida[21].

Sua jornada agora parecia fazer todo o sentido. A próxima cidade era Kyoto, a capital nacional[22]. Não era ali que ficava o Templo de Benzaiten, o Choken-ji? Entre as casas das gueixas, os últimos cristãos escondidos nas montanhas, as salamandras gigantes e os dragões secretos dos córregos, os cães Akita Inu[23] mimados de estimação, que comiam melhor do que a maioria dos pobres, os gatos Mi-kê[24] e sua delicadeza confortante e enigmática, as intrigas palacianas, esse misto de poder, superlotação e misérias humanas cotidianas?

Quando chegou ao templo da deusa, prostrou-se diante da imagem. Concentrou apenas os ouvidos na água corrente que chiava em torno dela e os olhos nas escamas de pedra do Dragão sobre o qual a divindade se assentava, e que via de soslaio. Pela primeira vez em muitos anos, chorou.

 

*                                        *                                                     *

 

 Enquanto alguns turistas e fieis se riam dele, ficou por horas sentado ali, em posição de lótus. Meditou até que a dor nos joelhos e na lombar ficasse insuportável. Levantou-se cambaleante e adquiriu das banquinhas ao lado algumas plaquetas com louvores a Benten.

 Naquele dia sim, dormiu no chão duro, ao lado do templo, contemplando as estrelas Orihime e Hikoboshi[25]. Sua jornada estava concluída.

 Para não perder a viagem até aqui, na madrugada seguinte partiu para Fukui, na Baía de Wakasa. Já que fora de um extremo a outro da ilha, não poderia deixar de ver o mar, quem sabe não seria diferente do mar que conhecia.

 Era realmente uma pena que faltasse tanto para março. No início da primavera, o florescimento das cerejeiras, em incontáveis fileiras, é um espetáculo único por aqui. Mas já vira muitas sakuras na vida, de modo que preferia se concentrar em coisas novas.

 Então lhe saiu o último haikai da viagem:

 

 Porto de si mesmo

Um homem, sua verdade

Floresce no outono.

 

 *                                        *                                                     *

  

Refez todo o caminho em sentido contrário levando mais alguns meses. O que seria de seu antigo mundo, depois de tanto tempo? Valeria a pena voltar? Como viver agora, se ele também não era mais o mesmo?

 Não sentia que tinha o direito de reclamar. Nem Yataro, nem Saori teriam. Cada um com seu bocado, com sua herança. Sabia estar bem na dor ou no prazer, compreendia-os não como vicissitudes, mas como o natural e o necessário. Estava acima dos julgamentos e das dualidades, do mal e do bem, muito acima das flechas inflamadas da guerra, como o bodhisattva que observa tudo acima das nuvens. 

 Os portões de Wakayama lhe pareceram um pouco mais gastos, mas o resto da cidade era o mesmo.

 O coração se apertou quando parou diante da velha casa. Servos lhe reconheceram à distância e acorreram chorosos:

– Como está mudado! Que lhe aconteceu? Sofreu?

 - Se soubessem que sofri muito mais aqui, não me teriam feito a pergunta!

 

Pediram-lhe desculpas pela indiscrição de perguntar, convidaram-no a tomar lugar na mesa do chá no meio do jardim.

Contaram-lhe que o irmão fora assassinado numa rinha de samurais. Motivos banais, discussão sobre a pesagem das sacas de arroz, saquê subindo à cabeça, um gracejo dúbio a uma mulher de má fama...

Saori foi muito forte, assumira a administração da casa, das plantações, aprendeu os ardis dos negócios. Era a viúva mais íntegra que se poderia conhecer, jamais falou mal do marido, e olha que ele merecia...

Teve pena do irmão, não mais ódio. Imaginava-o agora vagando pelo gakidô, o mundo dos fantasmas eternamente famintos.

Ainda um pouco pesaroso, dirigiu-se ao interior da mansão. Teve medo, mas que importava? Sua vida toda fora estragada pelo medo.

 

*                                        *                                                     *

 

Ela estava de costas e em silêncio, vestia seu mais magnífico quimono e dobrava um origami em forma de boneco. Soprava-o para fazê-lo vibrar, e depois o segurava nos braços como se a acalentá-lo.

Parecia absorta, mas ele sabia que ela percebera sua presença.

Então, ela atirou o boneco ao fogo.

– Saori, que fazeis?!

– Ainda não havíeis sido moldado, meu senhor. Agora sois.

– Saori... há tanto o que dizer...

– Não há nada o que dizer, Hiroshi. Dizeis demais. Fazeis poesia de tudo, menos de vossa própria vida!

 

De repente, diante de seus olhos, Saori se transformava em algo etéreo, e os raios de Amaterasu[26] desciam sobre ela. Percebeu que agora ela assumia a forma de Benzaiten, e caiu de joelhos.

Ela lhe beijou as mãos e se levantou gentilmente. Sempre em silêncio, levou-o a uma sala fechada e lhe ofereceu o chanoyu[27].

Quando o ritual terminou, ainda sentindo o gosto leve do matchá[28], foi conduzido a um quarto contíguo, e ela despiu o kamiko[29] de Hiroshi. Após também despir-se, deitou-se sobre o estrado de madeira, e fitou seus olhos como um hototogisu[30].

Enquanto unia seu corpo profunda e complacentemente ao de Saori, dentro e em torno dela, Hiroshi olhou de perto sua pele delicada, seus olhos negros como nanquim, sua boca cortada como um figo aberto e seus pequenos seios como cerejas satonishiki – por todos os kamis[31], nunca vira de tão perto! – e lhe surgiu na alma o último haikai, o haikai perfeito, que seus lábios não eram dignos de pronunciar, mas que ela conseguia ler em sua mente, ela lia!

E foi assim que, num abraço translúcido, os dois corpos se desvaneceram na mais pura luz.






 


 

 

 

 

 



[1] Tsuru ou grou do Japão é uma ave sagrada, considerada símbolo de felicidade, longevidade, saúde e boa sorte.

[2] Típica cerejeira ornamental do Japão.

[3] Divindade budista (bodhisattva) tida como guardião das crianças (mesmo as mortas), das grávidas e parturientes. Também é tido como protetor dos viajantes (em viagens físicas ou espirituais). Estátuas suas podem ser encontradas em jardins, cemitérios, encruzilhadas, estradas e santuários.

[4] Demônio ou ogro da mitologia japonesa. Tem a função de atormentar os condenados no inferno (jigoku), mas também pode atormentar os vivos e armar-lhes emboscadas, imitando o choro de uma criança, para devorá-los.

[5] Espada típica japonesa de lâmina curva e cabo longo, utilizada pela classe dos samurais.

[6] Amida ou Amitaba é o Buda que preside a Terra Pura, uma espécie de Paraíso para os iluminados.

[7] Haijin é o nome que se dá ao poeta especialista em haikais – poesia nipônica típica, desenvolvida a partir do século XVI, composta por apenas três versos, respectivamente de 5, 7 e 5 sílabas poéticas. O poema deve conter alguma referência a uma das estações do ano, elementos da natureza e representar toda a beleza de um único momento fugaz, dentre outras regras. Seu primeiro grande mestre foi Matsuo Bashô (1644-1694), que costumava buscar inspiração em suas longas viagens.

[8] “Satori” é o termo japonês budista para “iluminação”, equivalente a “wu” em chinês e a “bodhi” no sânscrito da Índia. A arte do haikai, que se utiliza da perfeita atenção, tão valorizada no zen budismo, pode ser um dos caminhos para atingi-lo.

[9] Escritura sagrada do Budismo Mahayana, em que o bodhisattva da compaixão Avalokiteshvara disserta a seu discípulo Shariputra sobre a forma e a vacuidade de todas as coisas, que são, em última instância, uma única e a mesma coisa.

[10] Espécie de cartolina retangular própria para se grafar poemas.

[11] A Dinastia Qing (1644-1912), oriunda da Manchúria, a nordeste, foi a última a governar a China antes da proclamação da república, período em que o país atingiu a sua maior extensão territorial. Joseon foi um antigo reino na Península Coreana e Champa um reino que ocupava parte do atual Vietnã, vizinho ao poderoso Império Khmer do Camboja.

[12] General supremo, escolhido pelo próprio Imperador. Em muitos períodos históricos, era quem exercia o poder de fato, usando a família real como fantoche.

[13] Yukakus eram “distritos da luz vermelha”, zonas do baixo meretrício. Karyukais eram os distritos de residência das gueixas, acompanhantes de luxo versadas em música, dança, etiqueta tradicional, a arte de conversar, e outras formas de entreter seus clientes.

[14] Senhor feudal que governava amplas regiões. Seu poder só estava abaixo do xogum.

[15] Estilo de poesia colaborativa escrita a várias mãos, ficando cada poeta responsável por uma estrofe.

[16] Outro reino da região da Coreia.

[17] “Sábio do clã dos Sakya”, um dos epítetos do príncipe indiano Siddharta Gautama, o Buda histórico, que abandonou tudo para buscar a libertação do Samsara (o ciclo eterno de reencarnações e sofrimentos). A dinastia Sakya era à que ele pertencia, assim como seus primos e primeiros discípulos Ananda, Anuruddha e Devadatta (que se tornaria seu traidor).

[18] “Dia das Meninas”, festa tradicional no início de março em que bonecas são expostas em altares ou em barquinhas sobre os rios, para que levem embora todos os males. Também, são servidos doces às crianças.

[19] Biwa é um instrumento de cordas típico japonês, semelhante ao alaúde. O lago tem seu nome porque suas bordas têm este formato.

[20] Benzaiten, também conhecida como Benten, é a deusa xintoísta da música, da poesia, da oratória, do amor, das águas e de tudo que flui, equivalente à deusa hindu Sarasvati (a que toca um sitar com seus quatro braços e é consorte de Brahma, o deus criador). É representada tocando uma biwa e geralmente compõe o grupo dos Sete Deuses da Sorte, junto a Bishamon (deus da guerra e da riqueza), Daikoku (deus da prosperidade e das colheitas), Ebisu (deus da pesca e da honestidade), Jurojin (deus da felicidade, da longevidade e da boa sorte), Hotei (deus da satisfação e da generosidade, representado como um monge budista de barriga avantajada, confundido erroneamente no Ocidente com o próprio Buda) e Fukurokuju (deus da sabedoria e protetor da Natureza). É comum encontrar imagens deles usadas como amuletos da sorte.

[21] A crença do japonês comum é um misto de xintoísmo (religião politeísta nativa do Japão) e budismo (trazido da China no século VI d.C.). O Código de Honra Samurai (bushido) também possui grande influência do confucionismo chinês e a corrente Zen do budismo traz grande influência do taoísmo chinês.

[22] Kyoto foi capital do Japão de 794 a 1868, quando a sede do governo do Imperador Meiji foi transferida para Edo (Tóquio).

[23] Raça famosa por ser utilizada como companheira dos samurais, conhecida por sua lealdade. No século XX, tornou-se popular devido à famosa história de Hachiko, um cão que esperou até o final da vida por seu dono falecido, indo até a mesma estação de trem onde costumava esperá-lo todos os dias.

[24] Raça também conhecida como Bobtail Japonês, inspirou a famosa figura do Maneki Neko, estátua de porcelana de um gato com uma das patas levantadas e portando uma moeda de ouro do Período Edo (1603-1868) chamada koban. É um amuleto da sorte.

[25] Orihime e Hikoboshi são dois personagens de uma antiquíssima história chinesa que chegou ao Japão, sobre um casal celestial separado por intolerância paterna, condenado a viver em cantos opostos da Via Láctea, só podendo se encontrar uma vez por ano, no mês de agosto. Correspondem às estrelas Vega e Altair. O evento do reencontro é comemorado no Festival Tanabata.

[26] Deusa do sol da mitologia japonesa. No xintoísmo tradicional, acredita-se que a família real descenda dela.

[27] Cerimônia do chá. Extremamente elaborada e cheia de rituais, pode durar horas.

[28] Chá verde utilizado no chanoyu.

[29] Quimono leve mas resistente, feito de papel crepom.

[30] Pássaro cujo canto melancólico é muito apreciado no Japão.

[31] Termo utilizado para definir os espíritos da Natureza ou dos antepassados, cultuados no xintoísmo.