VAPOR
Ruas apinhadas, homens com chapéus
incômodos, mulheres e seus cestos de roupas a lavar no velho Mississipi.
Mas morte é o que vive em mim. Morte da menina esmagada pela locomotiva. Vapor. Barco. Locomotiva. Vapor é o que alavanca o movimento, a vida que se dissolve, embora tu creias nunca.
That’s all you must know about me.
I’m a wonderful close shell
Between the heaven and hell.
Living in dirty slums,
Hotels, train stations,
Riding the steel snake,
Throughout the plantations.
You know nothing about me
You shouldn’t know more
Leave as it is
Life is like this
Let’s just roll to the shore.
A castaway knows how to beg.
Would you know how to beg
To get out of this life?
So start to drag
This carcass to the crag.
I’m out of my mind,
You crossed the line”.[3]
“I hit the Old Road
From Minnesota to the two Dakotas.
I’m
a harum-scarum tramp.
And I like my tramps
With very big hips.
I chew tobacco
And wheat branches,
I chew ladies’ hearts too
And get into many fights.
I can only be this way
I can only be this way!”[4]
Sabe, eu já apaguei o que fui. Tudo aquilo é passado. Ninguém me conhece deste lado da divisa, nem a polícia de lá tem jurisdição aqui.
Meu nome agora é Peter. Não é Peter o apóstolo que nega o Mestre e aquilo mesmo que ele é? Ou seria melhor Paul, o apóstolo que cai do cavalo, que muda de vida, mas que chega atrasado, precisa ficar cego para poder enxergar, é isso a odisseia da vida então?
Que seja, o nome da pia batismal, de cartório, esse foi pela latrina junto aos documentos. Em breve nem eu mesmo me lembrarei dele. Não era assim quando se entrava num monastério? Seu nome, seus cabelos, seu sexo, seu orgulho, ficavam do lado de cá da clausura. Ali dentro nascia outro homem, arrependimento de Agostinho, inocência de Francisco, desespero de Lutero.
Tenho refletido muito sobre isso. Só que o meu sacerdócio é o do bardo nômade. Um homem que canta suas raízes tira sua seiva da estrada, sua alma vem da terra, ele respira bruma, canta os murmúrios da chuva, se alimenta do rocio da madrugada.
Só por isso eu tive coragem de fazer aquele pacto na encruzilhada.
O houngan[5] das Antilhas, os paramentos vermelhos, o espírito ao seu lado, desenhado em trevas contra o fundo de luz esfumaçada que só eu vi: “Tudo te darei e nada terás” – eu ouvi ou eu supus?
Sabe, doutor, eu fui bem sucedido nesse negócio de música, me apresentei do Texas ao Maine, tive ideias para 235 canções, registrei todas. O último desgraçado que tentou me passar a perna agora é comido por bagres e aligátores no fundo de um leito.
Não foi fácil, mas quando você começa, pega gosto e não consegue parar. Marquei um encontro de negócios, cheguei por trás, enterrei a machadinha no meio do crânio dele. O senhor deve saber como os ossos são duros, certo, doutor? O couro cabeludo caía como duas fronhas amarfanhadas, uma pra cada lado, o sangue descia como cascata pela face. O desgraçado não morria. Penetrei a jugular com o canivete, puxei para o lado por debaixo da mandíbula, de orelha a orelha, ouvi grunhidos de dor, ele ainda tremia tanto, pensei que iria se levantar...
Dei estocadas no peito então, as costelas estalavam como galhos, o pulmão se esvaziava como uma bexiga flácida. Cortei de cima a baixo, do esterno à virilha esquerda, como estripava os porcos no matadouro. Arranquei seu fígado e seu baço tão escuros, a vesícula soltava um líquido esverdeado pegajoso, puxei os intestinos claros para fora, como linguiças recheadas de porcaria fedorenta, não parava de sair coisas, joguei tudo no rio para os bichos. Enchi a carcaça de pedras e afundei o corpo.
A desgraça é que minha roupa ficou encharcada de sangue, aquele cheiro ácido e ferroso me dava náuseas, o vermelho por toda parte a me denunciar. Joguei a roupa no meio dos nenúfares brancos, corri de ceroulas quase o dia inteiro por entre as ribanceiras, até em toca de castor tive que entrar quando pessoas se aproximavam.
Ao cair do manto cor de café da noite, perfurado aqui e ali pelos lampiões de óleo de baleia das estrelas que nunca nos alumiam, rendi um cocheiro babaca que passava distraído cantarolando, tomei seu coche, o cavalo negro como piche parecia ter olhos de fogo à luz da lua e parecia correr para o inferno, o relinchar era macabro, ele olhava para trás de quando em quando, como se quisesse me dizer algo. Parei perto da pensão, pulei a janela, peguei minhas coisas e me escafedi embarcando no primeiro stern-wheeler[6] que achei no porto...
Contar essas coisas íntimas me dá vontade de um tabaco, doutor. Dá licença de mascar meu fumo de rolo, ninguém corta um como eu, ainda tempero com rum, canela e uma flor seca da cannabis, o senhor sabe como é. O senhor quer um pedaço? Não? Entendi, o senhor prefere tragar um cubano, bom, de onde eu venho a gente não tem dinheiro pra essas coisas de fresco, lá a gente é pobre e macho mesmo.
Mas voltando ao que eu ia dizendo, o senhor não pode imaginar que vigor que eu tinha. E olha o que sou hoje. Na verdade eu só queria um remédio para esquecer. Eu não gosto lá muito de psiquiatras, o último que conheci tentou me prender com os loucos – por que todo mundo acha que pode me meter grilhões? – depois desistiu quando disse que lhe arrancava as tripas com as mãos se tentasse, aí então me deu umas pílulas que eu tomei e vi a vida como ela era do avesso e foi horrível, horrível, sabe como é doutor?
Eu queria esquecer tudo isso, mas o espírito trevoso não deixa. Ele estava de pé lá no quarto do hotel, hoje mesmo de manhã. Ele disse “a sua menina me chegou como metade do pagamento, mas eu nunca vou embora sem a última prestação”.
Doutor, eu vim aqui como último recurso, disseram que tem uma cigana em Baton Rouge que aprisiona almas em sua coleção de cristais, e que tem um pastor pentecostal em Saint Louis que expulsa demônios, existe isso de se livrar da própria sombra? Existe isso de encontrar a paz? De salvação?
Doutor, se preciso, me tranque aqui, eu não aguento mais...
O doutor ouvia, em total atenção, tomando anotações, sentindo-se mal, até que, num átimo, se estancou em horror quando viu o homem gritar, gritar que não queria ir, e se transformando aos poucos de carne em neblina, até não sobrar mais nada diante de seus olhos...
[1] Pedaços de intestino de porco limpos e fritos na própria gordura, muitas vezes servidos com alho, cebola e molho picante.
[2] Pão de milho que comumente acompanha as refeições na culinária sulista dos EUA.
[3] “Eu cresci no
Tennesse / Isso é tudo que você deve saber sobre mim./ Eu sou uma maravilhosa
concha fechada / Entre o céu e o inferno. / Vivendo em favelas sujas, hotéis,
estações de trem / Cavalgando a serpente de aço / Através das plantações / Você
não sabe nada sobre mim / Você não deveria saber mais. / Deixe como está / A
vida é assim / Vamos apenas rolar para a costa. / Um náufrago sabe implorar / Você
saberia como implorar para sair desta vida? / Então comece a arrastar esta
carcaça para o penhasco / Estou fora de mim / Você passou da linha”.
[4] Eu peguei a
estrada velha de Minnesota às duas Dakotas / Eu sou um vagabundo irresponsável
/ E eu gosto de minhas vagabundas com quadris bem grandes. / Eu masco tabaco e
ramos de trigo / Eu mastigo o coração das mocinhas também / E me meto em muitas
brigas. / Eu só consigo ser assim / Eu só consigo ser assim!
[5] Sumo sacerdote no vodu haitiano.
[6] Barco a vapor com uma única roda de
pás, na popa da embarcação.

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