sábado, 9 de janeiro de 2016

DESVENTURAS DE UM PROFESSOR DE ÉTICA



Não, não é desabafo, não é vitimização, não é só um dia pra curtir uma fossa. Não é um manifesto, não é uma jogada de marketing pessoal, não é um planejamento estratégico, não é nada disso.

É que de repente eu me pus a pensar (e não disse Sócrates que a vida não refletida não vale a pena ser vivida?) e vi um flashback nos miolos acerca do que me propus a fazer neste mundo.

Quando ainda muito menino, gostava de vagar sozinho, ouvir Beethoven, Chopin, heavy metal, rock progressivo e Frank Sinatra. Lia o Hamlet, lia o Werther, uns versos melancólicos do Romantismo, uns outros de troça e de crítica social do Modernismo e pensava que o mundo pós-moderno (eu ainda não sabia que ele se chamava assim) já tinha perdido o bom gosto há muito tempo e caminhava a passos largos para a autodestruição.

Quando percebi que quem caminhava a passos largos para a autodestruição era eu, resolvi tomar jeito. Vamos tentar fazer amigos, fazer terapia, abandonar amores platônicos, empreender uma busca espiritual, não é?

Passei pela filosofia oriental, pelo evolucionismo de Bergson e de Kardec, pelo mundo afro-brasileiro, pelas matrizes católicas, pelos existencialistas, pelos niilistas, pelos desesperados. Encontrei-me (ou melhor, encontrei-me com Deus) no cristianismo protestante, mais precisamente em sua teologia de matiz calvinista, presbiteriana.

E como cristão, aprendi desde logo a não ter ilusões sobre o homem: criatura caída, rebelde contra Deus, manchada e distorcida pelo pecado. E, claro, se isso se aplicava aos outros, também se aplicava a mim.

Aprendi que, justamente por isso, os esforços do homem em direção ao seu Criador são inúteis, dependendo sua redenção de ato gracioso e unilateral de Deus – sola gratia (Só a Graça), já dizia Lutero – humilhante para a arrogância humana, verdade profunda para quem já chegou ao fundo do poço, fundo este que, se você ainda não conheceu, um dia conhecerá, e agradeça por conhecê-lo, pois creio que o homem não aprende o que significa o homem se não conhece o poço, a “noite escura da alma” de São João da Cruz, o “abismo por dentro do exato tamanho de Deus” de Santo Agostinho.

Aprendi também que isso tudo não é desculpa para viver irresponsavelmente – justamente do que nos acusam aqueles que creem na salvação do homem por seus próprios méritos – mas para viver de acordo com sua nova vida, a vida que ama porque se sabe amada, incondicionalmente amada.

Mas é aí que surge em cena o grande problema, porque a sombra que contamina, o impulso do que destrói tudo que é belo, sempre estará ali, às vezes mais forte, às vezes mais fraco, dependendo do cão interior que você resolver alimentar mais, como já disse algum monge medieval

E quanto aos momentos de dúvida, de espanto, de aguerridas lutas, de dor e de injustiça? Sim, porque nem tudo será um canto alegre de certeza, mas será preciso aceitar que muito não se sabe – às vezes nunca se saberá – e do lado de cá do mistério cabe trabalhar com as mãos que nos foram dadas e o resto colocar nas mãos de Deus, orar, porque oração é entrega: ora et labora (ora e trabalha!) já disse São Bento à sua ordem de monges no século VI.

Foi então com essa armadura, já jovem adulto, que eu saí para enfrentar o mundo. E que mundo!

Apaixonado pelas letras, passei raspando pela Literatura e caí nos bancos do colateral Direito: parecia uma boa ideia, juntar uma ciência que se ergue sobre o poder da palavra e ainda guarda como ideal-mor a Justiça, não é mesmo?

Pois bem. Agora só precisávamos constatar como de fato se construía a justiça do homem.
Em primeiro lugar, há que se perguntar que raios é a Justiça, já que, em se tratando de valores morais presentes em dada sociedade e levando-se em conta que o homem contemporâneo (pós-moderno, que é mais chique) não mais aceita absolutos, não se pode tratá-la senão de modo relativo.

Recorramos então aos sábios, os “amantes do saber”, filósofos, como Pitágoras os chamou. Ora, Sócrates percebeu sua ignorância fundamental e a necessidade de buscar a sabedoria e a virtude, num processo sem fim. Seu discípulo Platão ficou horrorizado ao ver seu mestre ser condenado à morte por causa da verdade (ah, isso nós cristãos conhecemos bem!) e descrendo totalmente deste mundo, empurra para um “mundo das ideias”, fora e além daqui, todos os valores, onde estarão dentre outros o Bem e a Justiça! OK, OK, mas o que fazer aqui, vivendo em nossos corpos (a “prisão da alma”, como ele disse), se inclusive não aceito sua aristocrática e determinista República de filósofos?

Sigamos então por Aristóteles, que cansado dos sonhos de seu mestre Platão, resolve fincar bem seus dois pés no chão e pensar mais sobre ciências naturais do que sobre conceitos metafísicos. Agora a ética é um exercício e a virtude é um meio-termo. Pois bem. Sensato, seco, direto e árduo – como quase tudo em Aristóteles – mas de um realismo irretocável.

Mas aí é de se perguntar quem de nós é capaz, já que (estava me esquecendo de dizer) o homem pós-moderno também é preguiçoso e imediatista, um banana, um fast food existencial!

Pulando toda a Idade Média – já falei de religião aqui – aportamos na Revolução Científica, que nasce nos átrios das universidades fundadas pela Igreja e, antes de cuspir no prato em que comeu, tenta separar o que é campo do homem do que é campo de Deus (uma inconsistência lógica, se se crê na onipresença e onipotência de Deus, mas sigamos, como mero exercício racional...). Agora se começam a abandonar as quimeras de cidades perfeitas para o bicho-homem viver (a Utopia de Morus, a Cidade do Sol de Campanella) e a sátira desfigura o sublime: Dom Quixote, Gargântua e Pantagruel, os reis sanguinários de Shakespeare...

Maquiavel fratura o mundo entre virtudes pessoais e razões de Estado – as últimas justificando tudo e se configurando totalmente incompatíveis com as primeiras.
Hobbes exagera na “depravação total” do calvinismo, e, enxergando lobos em homens, defende o “escreveu não leu, o pau comeu”. Bodin, Bossuet e outros não ficarão atrás e darão todo poder ao rei, esse que é escolhido pelo próprio Deus com a missão de botar ordem na Terra!

Mas que reis! Tão podres quanto a maioria de seus súditos, começam a erigir seus impérios de terror, impérios que atravessam mares e trucidam povos dantes desconhecidos.

Não seria estranho, sabendo-se do caráter esquizofrênico do ser humano, que este seria levado, em seu eterno movimento de pêndulo, a trocar a segurança pela liberdade, o universal pelo individual, a fé pela razão.

Iluminados! Sim, é o que se achavam! E todo o resto, automaticamente, era trevas...
Críticas a tudo, uma fé, mais cega do que a medieval, na ciência e na reforma política dos homens, revoluções burguesas, liberdades clássicas!

Não que não haja aí também muito de bom, mas, de novo, os pobres (bucha de canhão da Revolução) foram empurrados às margens!

Às margens não: às cidades imundas e às fábricas insalubres. O que ditava as normas do mundo agora era um utilitarismo ético sem precedentes, mascarado de liberdade, que engordava com o lucro, e o número de mortos podia se contar muito acima dos extermínios dos antigos reis.

Quem sabe se porque agora, num Estado laico, republicano, de Direito e burocratizado, o mal não esteja pulverizado em milhares de funcionários anônimos que apenas cumprem ordens que saíram pela primeira vez sabe-se lá de quem? Não foi isso que percebeu Hannah Arendt sobre os carrascos nazistas julgados em Jerusalém?

Reações não tardaram. Socialismos – não só aquele, mas vários! – brotavam dos proletários da Europa. Contra ou a favor destes, o século XX veria nascerem as guerras, sempre em nome do melhor, sempre resultando no pior!

Talvez, porque, de fato, não se poderia confiar nos homens. Nesse ponto até o anjo caído concorda, pois embora seja “o pai da mentira”, nisto não há como esconder.
Quem sabe então jogar a toalha? Achar que estamos sós diante do abismo, diante do nada? Tão Nietzsche, tão Sartre, criar nosso próprio caminho, sem se importar se alguém está nos seguindo ou se está precisando de nós?
Ou quem sabe, nesta moda de sustentabilidade, temendo a crise hídrica e o aquecimento global, não devamos nos tornar “humanos”, numa enorme ética comunitária de irmãos que abraçam a grande Mãe Gaia?

Pois bem, se o caro leitor me acompanhou até aqui, deve ter entendido um pouco sobre o que à época (e ainda hoje) me atormentava.

Estudando, estagiando, ganhando pouco, gastando ternos e sapatos, formei-me advogado.
Entendi o básico dos milhões de leis de uma nação hipernormatizada, que ainda acredita resolver seus problemas criando leis novas numa estrutura que sequer consegue cumprir as antigas, e fui jogado no recheio do sanduíche entre tal sistema que tenta manter alguma aparência de justiça e um povo que não guarda qualquer simpatia por regras ou obediência a quem quer que seja.

Mantive-me longe do Direito Penal (quem sabe assim nunca defenderia criminosos...), longe do Direito do Trabalho (quem sabe assim nunca impediria um trabalhador de receber seus lídimos direitos ajudando empresas ávidas por lucros...) e longe do Direito Tributário (quem sabe assim não me enojaria com o apetite descomunal do Fisco por dinheiro dos pobres cidadãos que eram obrigados a sustentar esta máquina opressora e corrupta, atravancando o crescimento econômico...), e desta forma escolhi o Direito Civil (esse arcabouço gigante, diretamente derivado dos romanos, que tudo abarca e influencia: da família ao inventário, dos contratos às empresas, da propriedade às indenizações).

Estava moralmente neutro, certo? Errado! Cedo aprendi que nunca estamos moralmente neutros, mesmo quando escolhemos a omissão (que me perdoem os cínicos e ceticistas, mas é verdade).

E cansado de ver ambientes de guerra (escritórios ninhos de cobra), chefes neuróticos que só sabem erguer-se diminuindo os demais (gestão do porrete, coaching assédio moral) e de reproduzir recursos processuais que em nada acrescentariam (resolver ou procrastinar?), decidi que era novamente uma hora para mudar de vida, e virei a mesa.
No passado fugi das Letras para não virar professor, mas meu fim foi esse mesmo: virei professor! Professor de algumas disciplinas de Direito, de Administração de Empresas, e, principalmente, da minha matéria favorita: Ética.

Seu nome oficial no ensino técnico era Ética e Cidadania Organizacional. E caberia a mim refletir com os alunos sobre isso.

Primeiro, vi que era preciso desmistificar a ética. A ética virou um mito ruim, uma palavra oca e mil vezes repetida (geralmente com os propósitos errados) como “amor” nos lábios da meretriz ou “honestidade” nos lábios do político.
Depois, vi que era preciso achar algo de perene em meio ao que é relativo, e traduzir tal importância a uma audiência de homens e mulheres pós-modernos, por mais démodé que isso pareça.

E, por fim, deveria fazê-lo num país chamado Brasil, fundado sob a monarquia patrimonialista portuguesa, tornado republicano em coronelismos regionais, treinado rapidamente e à força para o desenvolvimento do capitalismo mais selvagem, mergulhado num mar de desigualdades e ausências de infraestruturas, acalentado numa cultura ociosa e protelatória, jogado contra os rochedos por uma esquerda ignorante, fanática e belicosa que não enxerga um palmo à frente do nariz e por uma direita saudosa de um passado que nunca existiu e que não enxerga ninguém além do próprio umbigo.
Já ouvi que a matéria era inútil, que é um belíssimo meio de encher linguiça, que é um componente anacrônico da grade curricular, que é interessante, mas impossível na prática, e até mesmo que não tem função técnica real, ou não traz dividendos para a organização empresarial.

E também já vi gente interessante, viva, entusiasmada, cheia de sonhos, mas que voltava desamparada, depois de levar por aí tanto tapa na cara de um mundo de lobos e serpentes, um mundo que privilegia o pior e lhe chama melhor, e está sempre pronto a nos rotular de atrasados, sonhadores, fundamentalistas, contraproducentes, ressentidos...

Muitas vezes pensei se não era hora de pendurar as chuteiras, se a luta não era inútil (veja bem que a ética pode significar luta contra outros, mas é principalmente luta interna...). Mas havia algo que me impulsionava, mesmo que em modo standard de preservação de energia mínima. É uma convicção, já sofrida, já surrada, de alguém pertencente a uma geração que já não sonha com revoluções utópicas que vão mudar o mundo, mas com o trabalho pequeno e possível, um passo por dia, um dia de cada vez, em direção ao que já é, ao menos, melhor do que ontem. São passos que não ignoram os obstáculos, nem a existência de tropeços, mas sabe que seu dever é andar para frente. Sim, dever, essa é a palavra, mesmo com Kant estando fora de moda, há imperativos categóricos neste mundo, e o principal deles é: viver com ética e com amor, não importa o preço!




A MENINA ESTOICA E O MENINO EPICUREU




Vi nestes dias, num dia de chuva de verão, dois pequenos irmãos a andar pela rua.
Rua de bairro, com poucos carros, destas que convidam os desavisados a desprezar as calçadas.

Tratava-se de um menino e de uma menina, a menina mais velha e condutora, o menino caçula e muito mais à vontade.

De repente, o moleque larga de vez a mão da irmã e sai – instinto universal de Gene Kelly, que poucos têm coragem de realizar – a sapatear sobre poças deixadas pela tempestade recém terminada.

A irmã entra em pânico, gelada, branca, com o peso da espada de Dâmocles sobre a cabeça, a provar que o poder só é um peso a carregar pelos outros e que se compensa, às vezes, com o sadismo secreto de vingar-se neles com gosto.

De certo que a mãe lhe incumbira de zelar pelo mais frágil – ó bela missão que corrói a qualquer um... – e ai dela se chegasse em casa com o irmãozinho neste estado. E se pegasse um resfriado então?

Começaram daí os gritos: – Para com isso! A mamãe não disse que você ia apanhar se fizesse isso de novo? Olha a sua roupinha nova! Nunca mais ajudo a te comprar nada!!!

A roupinha nova, os tênis e seus cadarços, as unhas limpas, as máscaras e os embustes! Ah, tudo que tolhe, tudo que esconde, tudo que impede... O menino mandava tudo às favas!

E a menina, fiel zelador ordenado por imposição de mãos e rito escocês da maçonaria pela própria mãe, guardiã da ordem e dos bons costumes, presa entre o ódio, a decepção e a impotência...

Não me pareceu nada de diferente de outras histórias. De mim e de minha irmã mais velha no passado. Da minha esposa e de seu irmão mais novo muitos anos atrás. E de tantos milhões que assim devem ter sido pelo mundo.

Mas eu me pus a pensar se eles continuariam a crescer assim e em que rumo tomariam em suas vidas. Seria a menina uma estoica convicta, tudo suportando e elegendo os outros como prioridade, enquanto sua couraça a acastelaria num mundo de virtudes e mofo?
E o menino? Um epicureu desnaturado, guiado pelo cio insaciável dos prazeres e – injustiça das injustiças, e por isso mesmo tão comum – o único dos dois a se dar bem na vida, passando a imagem de leveza e sociabilidade que todos queriam ver e recusando qualquer peso, como o atleta que corre só para o alvo que lhe interessa, mandando ao inferno tudo que acontece ao seu lado?

Talvez. Ou talvez não sejam mais do que pessoas medíocres e comuns, como a maioria de nós, a ter os dois dentro de si, brigando como trevas e luz, e sempre se sentindo culpados por qualquer dos dois que ganhe a luta (temporariamente, frise-se bem...).
E foi então que a mãe chegou. Ralhou com os dois, distribuiu puxões de orelha, a um por incompetência, a outro por insubordinação.

Depois de averiguar a história, exercendo o contraditório e a ampla defesa, houve por bem comprar um doce, um doce só, só para a menina. O recurso de apelação do menino, com direito a choro, blasfêmias, orações imprecatórias e uma baita falta de compostura, não renderam o esperado resultado de reforma da decisão, mas atraiu olhares curiosos e estampou um sorriso disfarçado de contentamento satânico na menina.


Quando chegaram em casa (ao menos é o que imagino), a mãe contou pormenorizadamente ao pai todo o ocorrido, o pai ouviu atentamente, fez coro de tragédia grega ao recital da mãe, deu um parabéns frio e solene à menina (mas sorriu apenas para o menino, quando ninguém estava olhando...).








quarta-feira, 23 de setembro de 2015

OS CRISTÃOS DE HOJE



“Renuevame, Señor Jesús,
Ya no quiero ser igual,
Renuevame, Señor Jesús,
Pon en mi tu corazón.
Porque todo lo que hay dentro de mi,
Necesita ser cambiado Señor,
Porque todo lo que hay dentro de mi corazón,
Necesita más de ti”.

                                              MARCOS WITT



Não são mais como aqueles
Que morriam nas arenas louvando.
Não são mais como aqueles
Que morriam pela verdade queimando.
Não estudam a fundo, não decidem em concílios.
Em nada são doutos, a não ser em empecilhos.


Falam palavras pesadas, odeiam-se.
Dão largas risadas, enfrentam-se.
Não defendem a justiça,
E se o fazem, é sem amor.
Preferem falsas premissas
A discernir com rigor.


Trocam aprendizado por espetáculo
E discipulado por receptáculo
Das mais vis paixões
(Suas adúlteras ilusões!)


E se antigamente, a palavra dada era penhor,
Hoje se lhes exigem mil hipotecas por um favor!
Já não se encontra quem ande trilha de ovelha,
Com tanto sonho de ser lobo, de ser estrela!


Não se identificam abraços nos rostos vazios.
Não se acham mais ombros na guerra civil.
Não se vê mais o que preste, ao longe, ao redor,
Não se vê o que preste no espelho, ó falta mor!


Quem somos nós? Quem somos nós?
Que vestimos túnicas de Pilatos, máscaras de Caifás,
Que somos mornos, vacas de Basã, sinagogas de Satanás,
Levitas em público e idólatras a sós?


Tão ciosos da honra do ego,
Tão afoitos e tão cegos,
Que esquecemos o Rei do banquete
Do lado de fora do palacete?


E quanto ao coração que devotamos
A tudo que nos corrói e tanto amamos?
Ou os hinos que cantamos desafinados,
Sem prestar atenção ao significado da letra?
A vida que levamos atarefados,
Irresponsáveis da eterna meta?


Ainda rogo que em tanta miséria
Nos apercebamos do quanto é séria
A missão do escravo que foi feito filho,
A seara do trigo, a debulha do milho,
O combate do soldado, sem trégua, sem estribilho,
A gestão do servo, a prestar contas do exílio.


Queira Deus que a alma encontre a Sua luz,
De onde veio, pr’aonde vai, a lhe preencher a vida,
Pois pobre do que nesse mundo não cair diante da cruz:
Conhecerá aqui o vazio e lá adiante a paz jamais tida!









terça-feira, 22 de setembro de 2015

TEOLOGIA DA PROSPERIDADE



Ligue a TV, ligue o rádio, pegue o jornal.
Olhe as fachadas nas ruas, os indícios nas operações escusas.
Disque nas madrugadas solitárias de temporal.
Eles estarão lá. Não aceitam derrotas, não entendem recusas.


Peça, por varejo, por atacado.
A farmácia é completa. A satisfação é garantida.
O investimento é a curto prazo.
Os juros são uma alma perdida!


Sorrisos, cabelos, colarinhos, gravatas.
Promessas, gritos estridentes, bravatas.
De repente há um revival de indulgências, de relíquias,
De simonia, de xamanismo, de estultícias...


Faz-nos querer chamar Jesus contra os vendilhões do Templo.
Faz-nos querer chamar Lutero contra João Tetzel.
Faz-nos ver que o homem não muda, só mudam os tempos,
E que ainda se trocam moedas de César por sacros shekels...


Como se Deus fosse tal máquina de refrigerante
Em que se depositam dízimos e ofertas
(Oferta de Caim, que fique bem claro e gritante...)
E se esperam snacks e latinhas, por meio de fórmulas certas.


E se não vêm? Chuta-se a máquina?
Como uma criança aos berros, determina-se, impreca-se,
E não tem erro essa tática,
Por que se tem, a culpa é sua, lasque-se!


Em egos gordos a doutrina vai se depositando,
Como tecidos adiposos de felicidade pastosa.
E a vida vai correndo em mercadorias se esgotando,
E a alma com sede, enganada e desgostosa!


Dos púlpitos trovoam guerras de Davi, Gideão, Josué.
A mesma frase de Malaquias nas bocas dos gazofilácios.
Os óleos santos, as toalhas ungidas, os leões da fé.
As orações fortes, os sonhos co’os palácios.
O copo d’água recebe ondas-bênçãos em cima da televisão.
E a dívida no tabelião importa mais que o divino perdão!


Se isso começou com Kenyon, com Hagin, com Hinn,
Com o pensamento positivo, com o transcendentalismo,
Com o materialismo, com o capitalismo, enfim,
Devemos nos perguntar se isso é cristianismo.


Se a cura de Deus vale mais que o Deus da cura,
Se a salvação se restringiu a esse mundo passageiro,
Em que passageiros somos num deserto de secura,
E não devemos nos seduzir pelas malas do bagageiro,
Por que insistir numa riqueza que no fundo é só pobreza:
Cisternas rotas que escavamos, longe do Deus de toda grandeza?


Ó manancial de águas vivas, rio sem fim!
Que corre do coração que suspira como as corças
Pelo seu Salvador, por seus átrios de marfim!
E tantos se contentando com o conforto de palhoças!


Porcos na sala, tumores do corpo, parasitas do espírito!
Falsos profetas, lobos em pele de cordeiro, estelionatários do aflito!
Todo cuidado é pouco. Todo que se deixa enganar é louco.
Pois é tão fácil abdicarmos de uma primogenitura abençoada
Por um prato de lentilha bem temperada,
Ou mesmo nos esquecermos da Canaã que tudo vale,

Preferindo ser escravo no Egito por uma panela de carne!






segunda-feira, 21 de setembro de 2015

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO


Há um Vladimir Ilitch debaixo do púlpito.
Há um Maiakóvski morto debaixo da mesa da Eucaristia.
Há uma perda de paciência, um acesso de ira súbito.
Há uma inversão de valores, não bastasse o entulho de heresia.

Paredes e colunas caiadas de vermelho.
Bandeiras estranhas caindo sobre os crucifixos.
Cegos surdos loucos tentando quebrar grilhões de seus artelhos.
Que é que de fato olha de sobre os altares, com olhos fixos?

A multiplicação dos pães virou partilha,
Não mais milagre.
O que se espera é um soldado de guerrilha,
Não mais um padre.

Foice e martelo – não a cruz!
Jesus veio salvar da miséria do mundo – não do pecado!
O mal é institucional – e não o coração do homem que o produz!
Os heréticos por isso excomungados são perseguidos, são uns coitados!

Rescaldo do Vaticano II, de Medellín, do CELAM,
Das Comunidades Eclesiais de Base,
De Gutiérrez, de Leonardo Boff, de Frei Betto, de Rubem Alves,
De Lukács, de Gramsci, de Paulo Freire, de toda utopia pagã,
Eles nasceram lutando por causas certas
Com ideias equivocadas,
Escancarando portas abertas
Para uma herança amaldiçoada.

Tentando erigir o Reino de Deus como zelotes,
Pegando em armas, identificando Satã com o Governo,
Abandonando a Vida, com cantos de morte,
Relativizando a moral, como um mote obsceno.

Se a Teologia era até então eurocêntrica,
Por que escolheram um judeu alemão?
Quem lhes deu autoridade para abandonar a teocêntrica
Antropologia bíblica da redenção?

Oh, errantes homens, quiçá bem intencionados,
Lembrai-vos que os planos de Deus
Estão acima dos nossos, tão mal ponderados...
Vede isto como vossos olhos ateus!

Queira Deus abrir vossos olhos e mentes,
Antes que vossa prédica misturada à política
Transforme nossa América Latina de sofredores e emergentes
Num monturo de dejetos ideológicos e mentiras cívicas!
















quarta-feira, 9 de setembro de 2015

JESUS PEOPLE MOVEMENT





“Por que o demônio deve ficar com os melhores tons?”

MARTINHO LUTERO




“Por que o diabo deve ficar com toda a boa música?”

GEOFF MOORE




Estava o mundo em adolescente crise existencial
(ou, segundo outros, “no êxtase da História”):
Mulheres e negros lutavam pelo direito de ser igual,
E tudo que parecia novo atingia a sua glória.


Formavam-se barricadas em Paris.
San Francisco coloria-se de arco-íris.
A Primavera de Praga desafiava Moscou.
Estudantes contra generais, e o terror se implantou.


Pedia-se paz no Vietnã.
Proliferavam viagens astrais.
Protestava-se ao som de Bob Dylan, Joan Baez,
E a guitarra estridente de Hendrix também tinha sua vez.


Quando Lennon disse “O sonho acabou”,
Quando a Revolução se tornou utopia,
Quando os Beatles terminaram, e com eles a histeria,
E o adolescente de repente adulto acordou,
Ainda restava o vazio eterno do homem
E os que não se acabaram em overdose
E os que não traíram os ideais que somem
E os que não se desesperançaram em pequenas doses,
Tentariam construir seu próprio caminho,
Ou acordariam para ver o Único Caminho...


A Revista Time repetia Nietzsche, o anticristão:
“Será que Deus está morto?”
As igrejas se esvaziavam de comunhão,
Fossilizadas num ritualismo torto.
Os lares desmoronavam como nunca.
Tumultos raciais tomavam praças.
Vidas acabavam cedo, enquanto nada muda,
E a roda do tempo repetia desgraças.


Distrito de Height-Ashbury, Costa Oeste,
Ensolarada terra de hippies e alternativos,
Ali nascia a contracorrente da peste,
Espalhando luz dos meios mais imaginativos...


Em coffee houses ou com um violão à esquina,
Sem tradições pesadas, órgãos poeirentos ou negras batinas,
Na rua, na relva, na Calvary Chapel em Costa Mesa,
Um avivamento tomava forma e causava estranheza.


Os cabeludos não recebidos em outros lugares
Batizavam-se aos milhares, cantavam hinos
E compunham suas canções em seus estilos peculiares
Para que Deus os ouvisse em seu canto genuíno!


“Doidos por Jesus”, “evangelistas psicodélicos”:
O barato era outro, bacana era o ajuntamento,
E aqueles espíritos, antes rotos e famélicos,
Agora exultavam sem qualquer entorpecimento!



Você pode falar o que quiser,
Mas muitos que nunca viriam, vieram.
Você pode resistir, se quiser,
Mas ainda persiste a transformação que trouxeram.



Sem eles, não haveria Vineyard Music Group,
Não haveria Andraé Crouch, Ron Kennoly e seu black gospel,
Não haveria Petra, Stryper, Narnia e seu rock gospel,
Não haveria o piano de Marcos Witt, de Michael W. Smith,
Nem a Hillsong australiana e sua fábrica de hits.
Não haveria os Vencedores por Cristo, por cá,
Plantados no Brasil por Jaime Kemp,
Nem as vozes famosas do rádio da MK Publicitá,
E talvez, quantos menos jovens convertidos de repente
Ao som das mais tocantes melodias,
Hoje “plugados” numa nova koinonia!



O homem mudou, Deus é o mesmo.
E Sua forma de agir é misteriosa...
O homem acerta, o homem deturpa a esmo.
Mas Deus conduz Seu propósito com mão poderosa.



Guarde em seu coração aquelas canções
Que falam do grande amor do Pai a lhe receber,
Daquela cruz no Calvário das aflições
Em que o Filho se entregou por amor a você,
E do Espírito Santo que lhe guiará pela vida,
Consolando e preenchendo esta árida lida
Que todos levaremos até o suspiro derradeiro,
Em que os Céus se nos abrirão por inteiro...










terça-feira, 8 de setembro de 2015

REV. DAVID WILKERSON




"Estou cansado da música que faz jovens pularem ao invés de dobrarem os seus joelhos."

"Evangelho Diluído não é Evangelho de Cristo".



Vivias num lugar pacato.
Teu pai e teu avô foram evangelistas.
Conhecias o fogo pentecostal inato
De louvores e cânticos avivalistas.


Cresceste alheio à geração perdida do jazz, ao modernismo,
aos beatniks, ao R&B se transformando em rock n’ roll,
à pop art, à nouvelle vague, ao feminismo,
aos tumultos de Woodstock, Ilha de Wight, Stonewall...


Nunca precisaste da droga de Albert Hofmann;
Nem dos contos macabros de E.T.A. Hoffmann;
Nem do piano de Fats Domino, de Little Richard;
Da guitarra de Chuck Berry, das portas da percepção
de Aldous Huxley, nem das portas de Jim Morrison
nem de sua Celebration of the Lizard...


Sabias do potencial inegável do Ocidente
Para sua própria corrosão,
Atingindo de maneira sutil e inconsequente
Sua própria prole em formação...


Ficaste chocado quando leste na Revista Life
O sinal dos tempos, sinal de morte.
A gang dos Dragons, suas correntes, porretes, canivetes,
Baseados, seringas, cicatrizes de toda sorte...


Teu ardor evangelístico clamou de dor e angústia,
Como o de Paulo na Atenas de filósofos vãos e deuses pagãos,
Que poderiam causar-te ódio, ojeriza e lamúria,
Mas só vias espoliados, condenados, erguendo imundas mãos!


Foste pregar, em becos, em buracos, em bocas,
Em bares, prostíbulos, boates, docas, e não poucas
Moradias precárias onde nem cães deveriam morar
Mas seres humanos lá viviam a se digladiar.


Como lobos em matilhas que disputam o poder
Com os dentes, as garras e os latidos,
Pelas fêmeas arrastando-se em troca de ser
Providas de entorpecentes, fetos natimortos e grunhidos.


Manhattan, Brooklyn, Bronx, Harlem Hispânico...
Com os restos que a América progressista vomitou
E escondeu nas suas entranhas de discrição e pânico,
Vendo o monstro que crescia e nunca recuou!


Quantas vezes não levaste para casa
Dependentes em crise de abstinência?
Quantas vezes não chamaste, com o coração em brasa,
Aqueles, chafurdados em excrescência,
Que não enxergavam um palmo à frente do nariz,
Para encontrarem, na Igreja da Times Square,
A única Luz que guia, o único Destino feliz?


E quanto a Nicky Cruz, o porto-riquenho,
Que lhe agrediu enquanto só lhe repetias, impassível:
“Jesus te ama!”, mas não como um jargão rouquenho,
E sim como quem vive o que fala, de forma tangível?
Ele foi ao culto, ele se arrependeu.
Ele chorou, ele se entregou a Cristo.
Levou a Palavra a outro, que também se converteu,
E não parou mais de pregar sobre o Messias que havia visto
Quando o Espírito lhe abriu os olhos do coração
Pra entender que Deus pode dar a qualquer um perdão
E salvar o mais iníquo dos homens, qual ladrão da cruz,
Seja ele Paulo, Maria Madalena, Mateus, Zaqueu, Raabe,
E até, se o quisessem, Judas Iscariotes, Jezabel e Acabe!


Tuas histórias de luta lançadas no teu livro,
A Cruz e o Punhal, publicado em 30 países,
Best-seller e transformado em filme,
Ainda influenciam a milhões e deitam raízes.
A Igreja na Times Square
Continua lá onde iniciaste teu trabalho.


O Desafio Jovem, que criaste nos anos sessenta
Para libertar os cativos do vício
– Que tanto arruína a dignidade de quem tenta
Inutilmente escapar a seu satânico ciclo –
Continua a exceder outros serviços de apoio em níveis de cura.
E perguntam alguns, perplexos: “Seria o fator Jesus?”,
Ao que a única resposta de clareza e de lisura
É a de que toda busca humana encontra seu fim na Cruz!


A paz que excede todo entendimento,
O amor que é inexplicável,
O lento laborar, mesmo em terra seca e nada afável,
Serão o selo do indizível, inexcedível salvamento!


Sabias disto tudo.
Tinhas teus momentos de sequidão
E sabias que os ataques das trevas do interno submundo
Sempre nos sobrevêm após cada celeste revelação.


Profetizaste que a Igreja da Ásia e da África
Cresceria em vigor e pureza em meio à perseguição,
Enquanto a Igreja do Ocidente cairia enferma e sem tática
Sitiada pelo materialismo, consumismo e mornidão.


Fizeste tua parte, até mais do que tua,
A nossa, que deixamos de fazer.
Até os 79 anos, o homem que saiu da igreja às ruas
Ajudou milhares de vidas a encontrar um novo viver.


Em 27 de abril de 2011, no Texas,
Seu Sedã Infinity bateu de frente com um caminhão.
Tua esposa, muito ferida, por pouco sobreviveu,
Mas tu morreste esfacelado – e assim deixaste este mundo de escuridão.


Tua mulher te seguiu no ano seguinte.
Deixaram 4 filhos, 10 netos, 2 bisnetos.
Mas deixaram uma obra muito maior por conseguinte,
Para viciados, prostitutas, arrependidos, sem-afeto e sem-teto,
Uma missão verdadeira, que não precisa começar
Com aventuras do outro lado do mundo desconhecido,
Mas com a alma sequiosa e miserável a vagar
Nas esquinas do seu bairro de coração endurecido...