No meu pequeno mundo mágico de playmobil,
Ainda não se conheciam os sofrimentos do mundo:
Não se sabia, por exemplo, que a ditadura agonizava no Brasil,
Que existia uma cortina de ferro, um muro imundo,
E que a qualquer momento a Bomba poderia acabar com tudo...
Que importava?
A linguagem difícil dos telejornais não se entendia
E a cabeça de um menino decerto não comportava
Que os homens pudessem ser tão maus e viver em tamanha agonia...
O máximo que se temia
Eram os Gremlins, o Jason, o Freddy Krueger,
O monstro embaixo da cama, o pisar no formigueiro,
Os mortos-vivos de Stephen King, a Loira do Banheiro...
Longas tardes onde era tão fácil inventar o que fazer,
Onde era tão fácil ver beleza na vida,
Onde era uma aventura o próprio viver,
E se dormia um sono tão tranquilo ao fim do dia!
Ah, dormir ao som do piano de Cristopher Cross,
Dos sintetizadores de New Order, Duran Duran,
Da nova baladinha do Phil Collins
E o Menudo não parava na vitrola da minha irmã...
Minha vizinha sonhava com seu patinete, Fofolete, Moranguinho,
E meu mundo era guardado pelo Rambo, He-Man, Superamigos,
Que derrotavam todos os males do submundo mesquinho,
Vigiando atentos, da Sala de Justiça, todos os seus inimigos!
O mundo lá fora só se acessava pela Sessão da Tarde,
Onde viviam E.T., Indiana Jones, jedis e andróides de Blade Runner,
Talvez em algum lugar do passado,
Talvez de volta para o futuro,
Talvez curtindo a vida adoidado,
Talvez Caça-Fantasmas no escuro...
Antes disso, ríamos da pobreza na Vila do Chaves,
Do Chapolin – o herói burro e raquítico latino-americano,
Nos episódios da década anterior que o Sílvio Santos comprara
Do então nascente império televisivo mexicano!
Eu prometia constantemente a mim mesmo:
Um dia ainda ando para trás como o Michael Jackson,
E como o McGyver, de tudo um pouco entendo;
Um dia ainda entro num cano como o Super Mario
E chego do outro lado em forma de bits do meu Nintendo!
E eu continuava no meu castelo de cartas,
Erguendo paredes de dominó e assoalhos de Lego,
Chamando os Thundercats contra Mum-Rá (não nego),
Alheio às angústias do mundo e do Brasil,
Construindo meu pequeno mundo mágico de playmobil!











