sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

FILOSOFIAS


Somos todos hedonistas na vida
até que vêm
as inevitáveis porradas da vida
e nos conformamos,
heroicos,
estoicos.
Nós nos fechamos em mistério, pitagóricos,
compondo versos tão órficos
e sonhamos o impossível, platônicos,
homéricos,
até o mergulho no real,
aristotélicos.
É quando num desespero quase agostiniano
tentamos explicar o sagrado, tomistas,
até que desistimos de tanto, por nossas próprias forças,
luteranos,
esperando sermos escolhidos,
calvinistas.
Mas por que então cavamos, cartesianos,
e nos enchemos de deveres, kantianos,
sintetizando vontades opostas, hegelianos,
ou mesmo lutando por alguma mudança, marxistas,
se no fim resta somente este lugar,
essa quase vontade de se matar,
existencialistas.




sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A ESCADA


Para Henri Nouwen e Anselm Grün

I

A gente por dentro
É como asfalto muito pisado
Que alguns que ali passaram
Foram abrindo buracos,
Crateras cheias de ar
Que já falta no respirar
E deixa de encharcar a vida.

A gente por dentro
É uma busca inútil para cima,
Árvore castigada em castigado clima,
Névoa oblíqua e faminta cobrindo montes,
Abismo pleno de ecos e vazio de pontes.

A gente por dentro
É nau tragada por trombas d’água,
Escrava versada na tábua da mágoa,
Velha que sonha em cadeira enfadonha,
Menino que afunda em rios de nada.
















II

A peregrina dos ermos,
De pernas e braços enfermos,
Alçando voo além de seus termos,
Permanece caindo sob os mesmos pesos
Das correntes fincadas nos tornozelos.

A peregrina dos ermos
Que bebe lágrimas e permanece sedenta,
Cuja garganta resseca e rebenta,
Que ri com o ópio de cada dia,
Mendigando aos pássaros grãos de alegria,
Caminha feito um sofisma
Pela corda sutil da boca do abismo.

A peregrina dos ermos
Dá as mãos ao espectro que ela namora.
A peregrina dos ermos
É o Vazio que se espraia por dentro e por fora.















III

Como correria a seiva
Por seus galhos retorcidos?
Como correria o sangue
Por seus alvéolos exauridos?
Ó inverno de extremos,
Ó peregrina dos ermos?

Dignai-vos a subir a escada,
Erguei os olhos à escalada
E ao mesmo tempo, atirai-vos à enseada,
Nas mãos invisíveis da história recontada.
A muda de pele da serpente.
O estilhaçamento do aquário.
O espelho da alma vivente.
A luz que descobre o sudário.
A escada dos doze degraus.
A descida ao inferno.
As asas refeitas do animal.
Os anjos em degredo.
Estais pronta para o segredo,
As entrelinhas do pergaminho,
O rio sem fim que corre vizinho?

Os prados são plenos e imarcessíveis.
O primeiro passo e a primeira queda são irreversíveis.
Ó inverno de extremos,
Ó peregrina dos ermos!
















IV

Que esses movimentos de maré de enfado,
Que essa reabilitação de cão aninhado
Vos presenteiem novos olhos, nova sarça,
Que novos céus, novas terras vos faça,
Conduzindo a outra linha não interrompida,
Não injustificada, não sem saída,
Não moldada pelo desespero do beco
Nem pela retórica de um amor seco.
Sabendo-se lama, galho, pedra,
Sabendo que todos em todas as eras
Também o foram em retórica de terra,
Personas do palco da saga que erra.
Peregrinos aqui sem descanso e sem termo,
Peregrina dos ermos,
Que só descansaram – filho mais velho ou filho pródigo –
Nos braços do pai de todos os propósitos.



sábado, 27 de julho de 2013

O ESTRANGEIRO

Nunca fui brasileiro de verdade.
Sou brasileiro torto.
Brasileiro à metade.
Brasileiro semimorto.
Não gosto muito de samba.
Não gosto nada de futebol.
Não danço, não dou risadas amplas.
Sou avesso ao sol.
Não assisto novela.
Não fofoco na janela.
Não comento a bunda alheia.
Não tenho cachaça na veia.
Tenho mais a taciturna sina
Dos meus antepassados lusos
Co´a silente melancolia
Dos seus olhos fundos,
Chorando eternamente nos portos
As caravelas idas
E os reinos remotos
Que já não têm mais vida.
Sou mais brasileiro gauche
Que toma café no Largo do Arouche
Como se estivesse na Champs-Élysées
Folheando em lágrimas Mallarmé.
Não bebo cerveja às sextas.
Não dou ouvido a boatos.
Não pulo carnaval.
Não acompanho campeonatos.
Não sou simples nem refinado.
Não vou a baladas no sábado.
Não fico ocioso aos domingos      
Nem concorro em bingos.
Não tolero o não levar a sério.
Tira-me do sério o deixar para depois
E se me achas um chato, um velho,

Pouco me importa. Qual é? Que foi?



DIAGNÓSTICO

O paciente se queixava
de mandar o dia-a-dia às favas,
de falta de ânimo na alma,
falta de dinheiro e de calma.
A tomografia computadorizada
apontou muitos ventríloquos no ventrículo esquerdo.
Havia crescido uma horta na aorta.
Havia muito figo no fígado.
Muito texto nos testículos
e um cisto na sístole
que estava diastólica.

O labirinto do ouvido interno
estava infestado de minotauros
e do rabo-de-cavalo
caíam lêndias de centauros.
As plaquetas não sinalizavam mais nada.
As meninas-dos-olhos estavam grávidas.
O pomo-de-adão era pecado
e as trompas de Eustáquio sopravam um fado.

O médico disse em sobressalto:
“Meu amigo, seu problema é outro,
não há tratamento e o preço será alto.

Você só pode ser poeta ou tonto!”.



quinta-feira, 25 de julho de 2013

CHOQUE DE REALIDADE

Então eis que acabou o recesso escolar:
Derradeiro dia da dulcíssima dança.
Enfrentemos dragões, moinhos, aluninhos!

A vida é Dom Quixote e também Sancho Pança!


domingo, 21 de julho de 2013

LIMERIQUE PARA TATIANA BELINKY

Avozinha das terras geladas
Onde se inventaram os contos de fadas,
Você veio ao Brasil trazendo sonhos e momentos,
Zéfiros nascidos do girar dos cataventos,

E agora partiu para outras etéreas estradas.


sábado, 20 de julho de 2013

O ÚLTIMO MAMUTE

O último mamute
caminha com a certeza
de que é o último de sua estirpe
em meio à correnteza.
Vai pesado e pesaroso
com as patas aveludadas
pisando solo pedregoso
devastando as madrugadas.
Quando dorme entre as geleiras
– mais antigas do que ele em suas brancas veias –
o seu sonho surreal
- muito antes de Dali -    
vê ali rudes fileiras
de sua família ancestral.
Vê o último e tímido
dos pequenos dinossauros,
vê cavernas, icebergs,
desenhos de minotauros.
Na sua fantasia
a intocável Medusa
é bailarina obtusa
que dança flamenco nua
como num filme de Carlos Saura.
O arcanjo Gabriel e a Morte
dançam enlaçados um tango argentino
enquanto sussurram a sua sorte
e Cronos lhe afaga a tromba gélida,
empurrando-lhe a face para mais ao norte.

O último mamute acorda e pensa
de quem herdara essa deserção da vida
e percebe que a sua existência
foi uma agenda não cumprida:
Domingo ir ao último penhasco da Eurásia
ver o nascer do sol que se abre.
Segunda ir dizer umas poucas e boas
para o tigre-dente-de-sabre.
Terça quarta quinta sexta
buscar por raros novos pastos.
Sábado finalmente ver a aurora boreal
e dezenas de novos tipos de pássaros...
Não, nada,
sempre essa expectativa naufragada:
acabara o que não foi.

O último mamute
caminha e hesita
debaixo dos pelos
que a neve atrita
e sente o peso
das eras infinitas.

Entre os brancos de marfim
com uma língua ressecada
ele liberta o derradeiro urro
de toda uma manada.

Quando lhe encontraram a carcaça

                                      Osso-pedra

                                                        Couro putrefato

                                                                                    Inútil caça,


Não lhe imaginaram os milhões de passos dados

Nem fizeram caso dos olhos vidrados.