(COM 6 ESTROFES PRA FICAR MAIS REBELDE...)
sábado, 17 de abril de 2021
SONETO ROCK N' ROLL
quinta-feira, 8 de abril de 2021
SONETO DE FRIDA KAHLO
Sofrida, coluna partida, um ferro embutido,
A viga do bonde perfura a vagina, as entranhas:
O acidente em Coyoacán, um veado ferido,
Pernas de poliomielite não sustêm a sanha.
Macacos, beija-flores, cocos, colares de espinho,
Corações expostos, cactos, três abortos sangrentos,
Na cama, de molho, convalesce, pinta aquarelas,
Na cama, ama, loucamente, homens e mulheres:
Diego Rivera, que só lhe faz sofrer quimeras;
Maria Félix, a atriz de dramas de malmequeres;
Até Trótsky, asilado em seu moreno ninho.
Sombra de sobrancelhas, "Sou frida mas não me kahlo",
Li certa vez em um grafite dum beco cinzento,
Símbolo ou mulher? Deusa asteca que ganhou seu halo?
SONETO DE MOZART
A estrela viva diante do menino,
Corre descalço, pardais na peruca,
Persegue o arco-íris, som dos sinos,
Quer o mundo, quer dormir, quer astúcia.
Menino-prodígio, que quer não sê-lo,
Que compõe sinfonia aos oito anos,
Transcreve uma ópera inteira sereno,
E a infância finda em assuntos mundanos.
Menino eterno, uma flauta mágica,
Dom Giovanni, Fígaro, Papageno,
Mente a Rainha da Noite sarcástica...
Pequeno divertimento noturno,
Rondó, quarteto, Réquiem e pleno,
Sinfonia Júpiter, grande ele mesmo!
quarta-feira, 24 de março de 2021
GEORG FRIEDRICH HÄNDEL
“The Kingdom of this World is become
The Kingdom of Our Lord and of His Christ,
And He shall reign forever and ever!
King of Kings and Lord of Lords!
King of Kings and Lord of Lords!
Forever and ever, Hallelujah, Hallelujah,
Hallelujah!”
(Do oratório “Messiah” - 1741)
Natural de Halle na Alemanha,
Superstar em Roma,
Nápoles e Veneza,
Instalado definitivamente na Corte
Inglesa
De George II, George I e Ana.
Diretor em Londres da Real Academia de
Música;
Compositor de óperas: “Almira”, “Rinaldo”,
“Xerxes”, “Ácis e Galateia”.
Sua “Música Aquática” desfilava sobre o
Tâmisa,
Mas o público, mais e mais, cansava de
suas melopéias...
Cheio de dívidas, obeso e glutão,
Celibatário, para alguns
maníaco-depressivo,
Para outros, um grande humorista
bonachão,
Levava a sério seus dotes com tom
incisivo.
E pensar que seu pai, barbeiro-cirurgião,
E seu avô, pastor luterano,
Nunca viram com bons olhos sua vocação:
Só a mãe, às escondidas, incentivando,
Dava-lhe instrumentos escondidos no
sótão,
Que foram a única alegria depois de
órfão.
Mesmo com o pai morto, sua sombra
permanecia:
Georg cursa Direito, última vontade do
falecido.
Mas por óbvio que seu pendor não emudecia
E em Hamburgo, imberbe, toma do violino.
Em Lübeck, disputa um cargo de organista
Com Johann Mattheson, outro compositor,
Surgem rusgas de suas excentricidades de
artista
E acabam num duelo de espadas, de
etílico torpor.
Não fosse o botão do casaco roto
A desviar o golpe certeiro, ao peito, da
lâmina,
E não teríamos hoje o mestre barroco
Dos anglo-saxões e sua flâmula,
Que mesmo endividado e desprezado,
Compunha oratórios como um condenado
Que quer diminuir sua pena, escravizado
Ao mundo secreto de sua espiritual
campânula.
Quando rascunhava “O Messias”, sua
obra-prima,
Ao surgir-lhe a idéia do magnífico “Aleluia”,
Perguntou se estava fora do corpo ou
acima
Enquanto tão altiva melodia compunha.
Ao ouvi-la, à prima vez, o Rei Jorge
Levanta-se em sinal de respeito
E até hoje a tradição tem suporte:
Só se ouve o “Aleluia” desse jeito.
Handel também morreu cego como Bach,
Não deixou cônjuge nem herdeiros,
Mas deixou um mundo sonoro a se admirar
Carregado da realeza de um trompete
alvissareiro.
terça-feira, 23 de março de 2021
JOHANN SEBASTIAN BACH
Órfão aos 10 anos, criado pelo irmão,
Debruçado
ao órgão, ao cravo, ao violino,
Na
igrejinha luterana, os joelhos em oração,
Ou
– sua maior e tresloucada devoção –
Dos
dedos-raízes às teclas,
Das
cordas-carícias aos hinos,
Dos
ouvidos atentos aos anjos sibilinos.
Casado
co’a prima Maria Bárbara: sete filhos;
Viúvo
aos 35, casado com Anna Magdalena,
Com
metade da sua idade: treze filhos;
Em
meio aos choros e cueiros, o tinteiro e a pena,
A
despensa é efêmera, mas o talento é perene:
Haja
paciência, haja dinheiro, haja pênis!
O
duque Wilhelm não lhe dá valor,
O
príncipe Leopold sim, mas paga menos,
O
conde Hermann sofria de insônia:
Só
sua música lhe devolvia nervos amenos.
Ninguém
sabia ainda que o prodígio da Saxônia
Traria
ao mundo a Tocata e Fuga em Ré Menor,
A Paixão Segundo São
Mateus,
a Ária na corda Sol,
Jesus Alegria dos
Homens,
o Cravo Bem-Temperado,
Os
Concertos de Brandenburgo, o Minueto em Si Bemol.
Morreu
cego, mereceu uma nota de rodapé num jornal.
Ficou
esquecido até Mendelssohn trazer-lhe à luz do dia,
Mais
de um século depois, num festival.
Se
não, conheceríamos sua harmonia
Que
fundou os princípios tonais da música ocidental?
Quantos
aprenderam, canhestros, o piano
No
Pequeno Livro de Anna Magdalena Bach?
E
não disse o filósofo amargo e poeta ateu
Emil
Ciorán, que odiava a todos e a Deus,
Que
a única coisa que amava no Cristianismo
Era
a música de Johann Sebastian Bach?
Se
queres uma prece sincera em forma de música,
Se
queres conhecer o êxtase em empírea acústica,
Tenta
ouvir calado o humano trinado do Mestre de Eisenbach!
JOHN MILTON
“Coros, que o trono me cercais! vós, anjos,
Cuja missão se
malogrou no Mundo!
Não vos magoeis nem
perturbeis co’os casos
Que, ocorridos na
Terra, não podiam
Obstados ser por
quanto zelo houvesse.
Profetizei-os em
detalhe exato
Quando esse tentador,
a vez primeira,
Vindo do Inferno,
atravessou o Caos:
Disse-vos que ele em
seu atroz projeto
Prosperaria,
alcançaria a palma;
Que, lisonjeado e
acreditando enganos,
O homem contra seu
Deus seria iluso:
Sucedeu tudo assim.
Por meu decreto
Não se fez necessária
a queda sua,
Nem seu livre querer
foi compelido
De modo algum: senhor
de arbítrio próprio,
Pôde muito a seu
gosto encaminhar-se.
Pecou: agora que
fazer me cumpre
Senão impor-lhe à
transgressão a pena
Que é destinada por
sentença, a morte
Para o dia da culpa?
Ele imagina
Fantasma vão a morte
que não sente,
Como temia, por um
pronto estrago:
Minha paciência, do
perdão diversa,
Findará breve, finda
antes da noite:
Minha bondade
desprezada sofre,
Minha justiça
desprezada pune.
Mas a quem mandarei
para julgá-los?...
A quem, senão a ti,
Filho dileto,
Que reinas junto a
mim? Juiz te declaro
No Céu, na Terra, no
Orco. Está bem visto
Que eu, do homem te
incumbindo o julgamento
(Tu mediador, amigo,
amparo do homem,
Que seu resgate e
Redentor ser queres,
Que a ser Homem como
ele te destinas),
Quero, em obséquio a
ti, por ter dó dele,
À justiça juntar
misericórdia”.
Paraíso Perdido – Livro X
Eras puritano
e mestre das artes,
Fora
secretário de assuntos externos de Cromwell,
Consentira
com a decapitação do Rei,
E produzias
escritos salutares.
Em pleno
século XVII defendias o divórcio
E não crias
que os mortos dormem
Ou que já
aguardam no Céu ou no Inferno
Co’um corpo
ressurreto seu final consórcio,
Mas sim que
os finados sonham, o real lhes some,
E os ímpios
só têm pesadelos como troféu.
Não crias no
que se dizia comum ou salutar
– Eras de
fato um calvinista bem peculiar –
Perseguido
depois, co’a restauração monárquica,
Já cego
diante de teus livros, como um Jorge Luis Borges,
Cruel ironia
e pesada sina atávica,
Deste aos
anglos versos épicos e fortes.
Alguns a
chamam quase uma segunda Bíblia,
Mas cheia de
liberdades poéticas e fictícias
Com que
narras a Criação, a Queda, a Redenção,
Fazendo da
estultícia de Satã o protagonista da ação.
Descreves sua
hordas, suas falanges:
Belzebu,
Belial, Baal, Astarote, Moloch, Mamon,
Os titãs, os
gigantes, as bestas infames,
O Pecado e a
Morte guardando as portas do Caos,
Que depois
invadem a Terra com seu terror.
Descreves os
exércitos celestiais:
Uriel,
Abdiel, Gabriel, Rafael, Miguel
E sua legião
de querubins, arcanjos e serafins
A
combater-lhes o tropel.
Descreves o
homem e a mulher
E seu mau uso
da liberdade,
A sedução, a
cobiça, por que os quer?
O fruto da
Ciência da absurdidade.
E por fim, no
Conselho Celestial,
O Filho que
se apresenta ao Pai,
Para
remi-los, Cordeiro de Deus, de todo o mal,
Fazendo-se um
deles para a sentença de Adonai!
Seu Paradise
Lost é uma canção de pranto
Mas de
esperança num mundo em ebulição.
Tu o
experimentaste com tão pouco acalanto,
Mas nos
puseste em estado de beleza e graça,
Com tua pena
de tanto esmero e inspiração.
DANTE ALIGHIERI
Homem atormentado pela solidão.
Florentino
atormentado pela política.
Desiludido
deste mundo de ilusão.
Desterrado
nesta terra iníqua.
Em
teu sonho, onírica comédia
(ou
seria uma tragédia?)
Corolário
da escolástica, da baixa Idade Média,
Pariste
o Renascimento, a língua italiana e o mundo ocidental
Num
poema épico d’espiritual inédia.
Conduzido
pela mão de Virgílio,
Por
óbvio que puseste teus inimigos no Inferno,
Os
humanos, demasiado humanos, no Purgatório
(Tu
mesmo esperavas ali acabar, merencório?),
E
no Céu, é claro, Beatriz e seu rosto tão terno,
Que
amaste, menina, em idílio,
Mas
e se ela não tivesse morrido?
Te
perguntaste que tipo de mulher teria sido?
O
platônico é mais belo que o aristotélico,
O
desejo maior que a posse,
(E
a posse contínua é a morte do amor?)
Se
nos versos não imortalizasses o angélico
Do
momento frugal da apoteose precoce
Terias
alcançado em êxtase os pés do Criador?








